Perguntas para fazer (a mim mesmo) sobre o material de um paciente

Eine Kleine Nachtmusik – Dorothea Tanning


Time Present and Time Past – Selected Papers of Pearl King
¹

APÊNDICE
Perguntas para fazer (a mim mesmo) sobre o material de um paciente²
1962


A. Antes da sessão
Qual é o setting dessa sessão? (É preciso ver cada sessão como a continuação de um processo. Essas questões possuem a intenção de nos sincronizarmos com a frequência do paciente.)

(a) Qual foi o tema da última sessão?

(b) Em qual papel o paciente me colocou, e quais conflitos intrapsíquicos estavam sendo transferidos do passado para a situação analítica?

(c) Qual o nível do material que nós estávamos lidando?

(d) Houve algum assunto que ficou pendente da última sessão e que eu deveria tentar retomar, caso surja uma oportunidade adequada?

(e) Qual é a situação de realidade, incluindo em relação com feriados ou a semana em relação a fins de semana, aniversários, etc.?


B. Durante a sessão


    1. Limitação de perguntas. Útil como verificação do nosso trabalho analítico, bem como um guia quando não temos certeza do que é mais dinamicamente importante que está acontecendo no momento.

    2. Lembre-se de sempre pensar em termos dos aspectos manifestos ou conscientes do que o paciente está dizendo, e os aspectos latentes ou inconscientes destes. Nós sempre estamos atrás dos últimos [os aspectos latentes].
 
   (a) Eu compreendo o que o paciente está conscientemente (manifestamente) dizendo para mim? Se não, é porque ele está querendo me confundir, ou porque ele está retendo alguma informação muito importante que faria sentido para mim?

    (b) Algo já aconteceu em sua análise que poderia me dar uma pista do que está acontecendo agora?

    3. A comunicação do paciente se dá no contexto de tudo o que aconteceu entre nós, bem como em seu próprio espaço de vida. Como a compulsão à repetição faz com que os pacientes repitam continuamente os mesmos padrões, o que aconteceu antes talvez seja relevante — mas sempre espere o inesperado também!

    (c) Com o que o paciente está inconscientemente preocupado que ele está tentando me comunicar (ou melhor, me impedir de testemunhar) no conteúdo latente daquilo que ele está dizendo?

    4. Freud nos deu dois tipos de ferramentas ou instrumentos para nos ajudar a entender o que está acontecendo no inconsciente de nossos pacientes durante a análise: ferramentas teóricas e um instrumento social.

    • As ferramentas teóricas incluem a técnica da associação livre e a técnica da interpretação dos sonhos. A primeira implica que quando duas ideias ocorrem lado-a-lado, elas estão conectadas com algum pensamento ou sentimento inconsciente. A última diz respeito ao desfazimento do trabalho do recalque através do qual o Ego tentou manter partes de si mesmo ou de suas experiências inacessíveis à consciência – isto é, tentou manter essas partes e experiências como inconscientes. É útil pensar no mesmo processo ocorrendo em relação ao material analítico, assim como ocorre com os sonhos, embora o processo não seja tão elaborado. Importância de oposições e negativos.

    • O instrumento social é, obviamente, a situação analítica, com a relação diádica e o conceito de transferência, do transferir de problemas emocionais e instintuais insatisfatórios para o presente, e a revivência destes em relação ao analista.


    5. No decorrer de uma boa análise, todos os importantes problemas emocionais e instintuais irão aparecer na relação analítica. A ordem em que esses problemas surgem varia de paciente para paciente, de acordo com seu padrão de defesas, a urgência dos impulsos instintivos, o grau de sublimação já alcançado e sua capacidade de tolerar a frustração. A ordem também depende da técnica e das hipóteses empregadas pelo analista. Portanto, é fundamental conceituar o que se você está fazendo! [!]


    (d) Quais pessoas ou situações do passado o paciente está transferindo agora para mim ou para a situação analítica? Como ele está me usando? Quem ele está sentindo que eu sou? Eu sou uma pessoa total ou um objeto parcial? Eu sou primariamente uma pessoa interna ou externa, ou ele está tentando me excluir de ser tanto um quanto o outro? Quem ele pensa que é?

    (e) Quais conflitos ou desejos instintuais inconscientes ele está procurando lidar com (para ter acesso a eles ou para fugir deles) ao reviver essa relação particular agora? (Compulsão de repetição.)

    (f) Quais ansiedades decorrentes desses impulsos ou conflitos inconscientes são mais urgentes e acessíveis, e qual situação psíquica está mais fortemente investida [cathected] (economicamente urgente) no momento e pressiona por liberação ou reconhecimento?


    6. Os conflitos instintuais podem ser vistos mais facilmente como fantasias inconscientes, dramatizadas nos termos das experiências e relações primitivas do infante. É útil dividi-las em fases emocionais e de desenvolvimento. Você está, é claro, familiarizado com elas: genital-anal-oral-fusional. (Eu adicionei a última, mas acho que é útil). Elas podem muito bem estar misturadas.


    (g) Qual é o humor ou os sentimentos do paciente, e como isso contrasta com o que ele está dizendo?


    7. Sentimentos e material inconsciente relacionados à fase oral podem predominar sobre o material que manifestamente, ou conscientemente, parecem estar relacionados à fase genital. Você precisa trabalhar através do material genital até que possa alcançar os sentimentos orais.

    (h) De que maneiras o paciente está resistindo ou se defendendo contra o tornar consciente desses conflitos instintuais e fantasias inconscientes? Quais mecanismos de defesa ele está empregando neste momento?


    8. As defesas empregadas geralmente se tornam mais claras após uma ou duas interpretações. Se não estiverem claras no material atual, normalmente se esclarecem como reação à sua interpretação. Assim, você consegue interpretá-las com maior precisão.


    9. Quando você possui alguma ideia sobre o que está acontecendo no inconsciente do paciente, você precisa se perguntar o seguinte:

    (i) Qual é a intervenção mais relevante que eu posso fazer neste processo para ajudar o paciente a ver o que está acontecendo nos processos inconscientes relevantes e para ajudá-lo a ter conhecimento – isto é, ensiná-lo a experienciar isso emocionalmente? O que espero alcançar com o que digo ao paciente?

    (j) Que tipo de evidência eu procuro para decidir se minha interpretação é correta? Devo interpretar o que ele faz com as minhas interpretações, ou posso presumir que ele as está assimilando? [André Green fala, em “O silêncio do analista”, sobre levar em consideração as contrainterpretações dos analisandos.]


C. Após a sessão

As respostas a essas perguntas devem ajudar a fazer um resumo dos principais rumos da sessão.


(a) Qual era o tema principal desta sessão?
(b) Quais foram as ansiedades dominantes?
(c) Quais métodos o paciente se utilizou para tentar lidar com elas (defesas)?
(d) Como essa sessão se conecta com a sessão analítica anterior?
(e) Que processos, se houver, observei emergir e que terei de abordar numa sessão posterior, quando se tornarem mais acessíveis à interpretação?
(f) Que sentimento ou humor eu experimentei após esta sessão?


NOTAS


¹ Psicanalista britânica (1918-2015), escreveu o livro “The Freud-Klein Controversies 1941-45 (1991)”. Foi pioneira na consideração de que pessoas idosas poderiam se beneficiar da psicanálise.

² Tradução livre e não revisada por Rael de França Silva para o [!] Coletivo de Psicanálise. Usem com sabedoria.

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