Como corpos são lidos
Preciado fala sobre não partir de uma posição em que “masculinidade” e “feminilidade” sejam dados “naturais”, para mim, também se trata de como determinados corpos são lidos. Digo, ao esbarrar em uma pessoa e se endereçar à ela no feminino, o que orienta esse endereçamento, por mais “inofensivo” que seja? Quais são os códigos visuais, auditivos, olfativos, sensoriais que sustentam a lida de uma pessoa para que ela seja tratada no feminino? Faço empréstimo do estilo autobiográfico com o qual Preciado se utiliza para falar da minha experiência, também, apesar do nome Rael parecer bem “determinado” do ponto de vista de uma marcação de gênero a priori, sou tratado no masculino pela maioria das pessoas que me conhecem, das amizades aos vínculos psicanalíticos. Algumas já me viram pessoalmente antes e após a transição social e esse tratamento persiste, felizmente.
Só que o buraco é mais embaixo quando pessoas fora do meu círculo de aceitação e pessoas desconhecidas entram em contato comigo. O Rael está ali. Mas o corpo que está diante dessa leitura visual é outro que não o masculino ou o não-binário, o corpo que é lido é o de uma suposta mulher, pela presença de protuberâncias no tórax e por uma voz talvez adocicada pelos baixos níveis de testosterona; a não ser que eu recorra à correção que esbarra numa espécie de constrangimento – e eu diria que se trata de um constrangimento para ambos os lados.
Mas o constrangimento em si não é uma coisa ruim! O constrangimento abre margem justamente para o exercício de se questionar o porquê das coisas funcionarem dessa maneira tão codificada em um único sentido, o de uma binariedade pré-estabelecida. O constrangimento pode ser um convite indireto ao estranhamento de gênero.
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