Dor psíquica, trauma e suicídio na clínica psicanalítica
Texto produzido para apresentação ocorrida em maio desse ano, quando ainda participava do grupo de formação em psicanálise com Rodolpho Ruffino, pelo Corpo Freudiano de São Paulo. Esse texto pode conter conteúdo sensível, proceda com cautela.
O artigo disparador para essa apresentação foi descoberto através de uma palestra, proposta pelo Instituto Cultural Freud, cujas atividades se dão no Rio de Janeiro. Sendo uma pessoa profundamente interessada no tema do suicídio, participei enquanto ouvinte na palestra e guardei essa referência pois achei tanto o debate quanto o artigo muito instigantes. A lembrança desse artigo surgiu quando mencionaram os trabalhos de Michele Bertrand e J.D. Nasio a respeito do tema da dor psíquica.
O artigo está dividido em três eixos principais: 1. História de golpes nos investimentos; 2. Sobre a dor, o trauma e o ato nas vicissitudes do sujeito e 3. Tessituras entre o singular da história e os aportes conceituais. Tomo a liberdade de adicionar mais um item para a apresentação, que consiste da epígrafe e introdução propriamente dita.
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INTRODUÇÃO
A epígrafe cita um poema de Sylvia Plath, chamado Electra no Caminho das Azaleias, uma elegia ao seu falecido pai, cuja morte produziu efeitos ao longo de sua obra e vida: "Foi a gangrena que devorou você até o osso, Disse minha mãe; você morreu como qualquer homem. Como posso envelhecer nesse estado de espírito? Sou o fantasma de um infame suicídio."
O pai de Sylvia, Otto Plath, se autodiagnosticou erroneamente com câncer de pulmão e como não havia cura nem tratamento adequados na época, recusou-se a buscar ajuda. Na realidade, ele sofria de um estágio avançado de diabetes, precisando amputar sua perna devido a uma gangrena; pouco tempo depois, veio a falecer em novembro de 1940, nove dias após o aniversário de 8 anos de Sylvia.
Estou fazendo essa introdução desviante com um breve recorte da biografia de Plath pois essa epígrafe me pareceu muito bem contextualizada, visto que notei algumas semelhanças entre ela e Aurélio, caso trabalhado no artigo. Esse artigo irá apresentar alguns dos efeitos dos processos identificatórios na relação da criança com o adulto, responsável por seus cuidados; e abordará também a sucedânea de golpes na vida de Aurélio. Sylvia Plath, que realmente não concebeu a ideia de envelhecer, deixou-se morrer assim como seu pai, em um suicídio.
A autora abre seu texto apontando para a complexidade inerente ao ato suicida, complexidade esta que se faz presente também na própria compreensão do fenômeno, através da teoria e da prática clínica psicanalítica. O que está em jogo no suicídio, a princípio, é a dor psíquica. Freud (1890) fala sobre as dores de etiologia psíquica, visto que mesmo que algumas dores sejam causadas pela imaginação, elas não são menos reais nem menos intensas.
Apenas no a posteriori ao malogro de uma tentativa de suicídio que é possível, através da articulação entre a fala e a escuta psicanalítica, produzir significações desse desejo de morrer (ou desse desejo de Outra coisa) que se fez ato pelo sujeito em um primeiro momento. Esse momento do só depois pode vir atrelado ao sentimento de fracasso: ”nem isso o sujeito conseguiu fazer” e a recorrência de atos autodestrutivos, no entanto, esse não é o único cenário: através da palavra, é possível construir e reconstruir formas de lidar com a dor psíquica e com os efeitos de uma tentativa de suicídio. É preciso também reconhecer a agência, e não culpa, do sujeito frente ao seu ato e com isso, não o submeter a uma posição de tutelado ou de vítima, mais do que isso, permitir que o sujeito possa dizer do seu sofrimento e do seu desejo de morrer em voz ativa.
1. HISTÓRIA DE GOLPES NOS INVESTIMENTOS
O uso da palavra investimentos denota um duplo sentido, abarcando tanto o sentido de economia financeira como o sentido de economia pulsional. A autora faz um percurso pela narrativa da história de vida de Aurélio com leves costuras teóricas, optei aqui por fazer uma divisão exclusivamente biográfica em seis pontos principais.
I. Família na penúria;
Aurélio organiza sua vida em três partes: infância, adolescência e maturidade. Essa organização, no entanto, diz mais de uma mistura e confusão, como veremos adiante. No tocante à infância, diz de como seu pai era um homem bom. Porém, na adolescência, relata o ocorrido da falência paterna, onde ele e sua família perderam todo o dinheiro e a moradia. Sua última lembrança, foi de que o pai vendera panelas de ferro para que não morressem de fome.
II. Suicídio do pai;
O pai conseguira um emprego de capataz em uma fazenda, a contragosto de ter que trabalhar como empregado. Num certo dia ao ajudar a mãe fazer o café, Aurélio vê o pai ao longe no topo de uma colina. O pai encontrava-se enforcado em uma árvore. Aurélio tinha uma relação de profunda adoração com o pai: “Eu adorava meu pai, era um de meus melhores amigos. Onde ele estava, eu estava”.
III. Assumir o sustento da família e a “paternidade” da irmã;
Sua mãe estava grávida quando o pai cometeu suicídio, nesse cenário, preocupada com a situação financeira, cogita entregar a filha que está para nascer à adoção. Aurélio, desesperado, implora para que a mãe não o faça, com a afirmação de que se tornará o responsável pela irmã. A mãe acata esse pedido e Aurélio se encarrega de encontrar um trabalho para assumir o sustento da família e a paternidade de sua irmã, isso aos 8 anos.
IV. A mudança na idade para evitar problemas com o Exército;
Por não ter sido registrado por seu pai ao nascer, aos 14 anos, Aurélio precisou mudar sua idade na identidade para não ter problemas com o Exército.
V. Perda de parte dos dedos após um “acidente” em uma pedreira;
Descrevendo sua maturidade como iniciada aos 8 anos, Aurélio começa a trabalhar como auxiliar numa fazenda e alguns anos depois, passa a trabalhar com explosivos em uma pedreira. Nesse contexto, sofre um “acidente” no qual fica gravemente ferido, vindo a perder parte dos dedos. Esse ocorrido o levou a uma aposentadoria precoce por invalidez. Suspeita que um trabalhador tenha detonado os explosivos antes do tempo previsto.
VI. O golpe da financeira e posterior tentativa de suicídio.
Anos depois, casado e com filhos, Aurélio decide comprar uma casa para a família e acaba caindo no golpe de uma financeira, cujos negócios eram ilegais e fraudulentos, perdendo tudo que tinha, inclusive seu dinheiro. É a partir desse momento em que Aurélio começa a pensar em suicídio:
“Já estava na minha cabeça, só que eu estava estudando uma forma. Perdi esses dias um grande amigo meu. Ele se enforcou. Até na época eu mesmo o critiquei. Disse: “É muita loucura. Eu não faria isso de me suicidar”. Mas talvez aquilo já estivesse predestinado para que eu fosse fazer isso aí. Saí e fui ao mercado, comprei um pacote de soda, tomei o ônibus e fui para a beira do rio. Minha intenção era me suicidar, não era outra coisa. Era isto: chego lá, tomo a soda, 20 minutos e estou morto. Não tinha a intenção de ficar sofrendo nem de fazer os outros sofrer. Era tomar e deu. … Se perdi tudo o que tinha e não vai ser recuperado, não tem sentido. Foi isto que comecei a pensar: “Não tem sentido. Não vou conseguir recuperar” … Na minha vida pessoal, já estava me sentindo uma pessoa que não tinha nada, estava perdendo o controle. … Sei lá. Aquilo é uma coisa gozada, é uma brutalidade contra si mesmo, uma coisa sem explicação. … Foi uns dois minutos, por aí, um minuto e meio. Passei a me sentir mal, queimava, parecia que tinha uma fogueira dentro do meu estômago. Eu quis falar, mas não consegui. Veio uma ânsia de vômito, veio uns pedaços de carne, da barriga, do esôfago, pois não tinha comido nada. Já estava vomitando sangue.”
A autora chama a atenção: Aurélio não faz nenhuma correlação com os elementos que giraram em torno do suicídio do pai, com os elementos que o fizeram pensar em suicídio também.
2. SOBRE A DOR, O TRAUMA E O ATO NAS VISSISITUDES DO SUJEITO
Abrindo com Joel Birman (2009) a respeito do aparelho psíquico como um aparelho de captura e metabolização, por meio dos temas da dor, do trauma, do ato e da destrutividade, é possível contribuir para a reflexão sobre a tentativa de suicídio de Aurélio. Garcia-Roza aponta para esse mesmo elemento, relembrando que em Freud, “a pulsão é um estímulo para o psíquico”, ou seja, algo que externamente funciona como estímulo para o aparelho psíquico (p. 163).
A respeito da dor, Nasio (p. 17) apresenta sua premissa: a de que a dor é um afeto que reflete na consciência as variações extremas da tensão inconsciente, variações estas que escapam ao princípio de prazer. Destrinchando essa premissa, Nasio aponta para a habilidade do Eu, que percebe em si mesmo as variações das pulsões e é capaz de repercuti-las na superfície da consciência em forma de afetos.
O funcionamento psíquico é regido pelo princípio de prazer, responsável pela regulação das intensidades das tensões pulsionais e por torná-las toleráveis, ou seja, quando essas intensidades são moderadas, elas se tornam conscientes como sentimentos de prazer e desprazer; quando são extremas e agitadas, tornam-se conscientes como dor.
Nasio (p. 18) prossegue com o raciocínio no contexto de uma ruptura brutal com o ser amado — que aqui também pode-se dizer em trauma — onde as tensões se desencadeiam e o princípio de prazer torna-se inoperante. A dor é o testemunho de um profundo desregramento da vida psíquica que escapa ao princípio de prazer. Assim, a dor é um afeto causado não pela perda, mas pelo tumulto pulsional causado por esta perda.
Em termos metapsicológicos, Nasio propõe: “a dor é o afeto que exprime na consciência a percepção pelo Eu — percepção orientada para o interior — do estado de choque, do estado de comoção pulsional (trauma) provocado pelo arrombamento não do invólucro corporal do eu, como no caso da dor física, mas pela ruptura súbita do laço que nos liga ao outro eleito. Portanto, a dor de amar é uma dor traumática” (p. 21).
A respeito do trauma, um retorno a Freud (1920, p. 75): “Aquelas excitações de fora que são fortes o bastante para romper a proteção contra estímulos são chamadas por nós de traumáticas (…) Um acontecimento como o trauma exterior certamente produzirá uma tremenda perturbação no funcionamento energético do organismo e colocará em movimento todos os meios defensivos”. O que estaria em jogo na dinâmica do trauma é o susto e a ameaça à vida: “O susto conserva sua importância para nós. Sua condição é a falta de prontidão da angústia, prontidão que inclui o superinvestimento dos sistemas que primeiro recebem o estímulo. Em consequência desse baixo investimento, os sistemas não estão em boas condições para ligar as quantidades de excitação que lhes chegam; assim, é muito mais fácil que as consequências da ruptura da proteção contra estímulos se façam sentir. (…) A angústia representa a última linha da proteção contra estímulos” (p. 79).
Isso faz pensar na discussão acerca o significado de trauma postulado por Chemama (p. 221 e 228): “Ora, um trauma que se repete, seria ainda um trauma? Ele não pode mais ser concebido como uma ruptura súbita, inesperada, do curso da existência. Ele se inscreve, precisamente, naquilo que a psicanálise chama de ‘repetição’ (…) Se quisermos verdadeiramente conservar a ideia de um trauma, seria mais correto dizer que o sujeito, enquanto tal, sofreu de fato um trauma: um trauma constitutivo, que é a própria existência da linguagem, pois, depois que passou a falar, não teve mais acesso direto ao objeto de seu desejo (…)”. Suponho que é válido retornar às perguntas que foram feitas acerca a possibilidade do trauma ser uma ocorrência pré-linguística e nesse sentido, eu gostaria de me aprofundar, em outro momento, no estudo do trauma do nascimento proposto por Otto Rank.
Diante do cenário em que os sistemas estão em más condições para ligar as excitações oriundas do impacto traumático, abre-se a possibilidade para falar nos efeitos desse predomínio do desligado no circuito pulsional, apontando para as construções acerca a pulsão de morte, cuja operação se dá no além do princípio do prazer, que evidenciam aquilo que é da ordem do excesso, do intrusivo, da destrutividade.
3. TESSITURAS ENTRE O SINGULAR DA HISTÓRIA E OS APORTES CONCEITUAIS
Ao referenciar o pai, Aurélio está falando de si também. Os tempos de sua infância e adolescência estão atrelados aos adjetivos que atribui ao seu pai: de homem bom e de homem perdedor.
De acordo com a autora: “A partir daí, anuncia-se um singular movimento identificatório por meio da qual a história de Aurélio está condenada a reproduzir essa forma cindida de perceber a figura paterna e de fomentar alterações em relação à percepção de si mesmo” (p. 212). No tocante ao uso do verbo reproduzir nessa citação, é pertinente fazer um retorno à obra de Garcia-Roza (p. 153), onde o autor irá apontar para uma diferenciação importante entre repetição e reprodução: wiederholen não é reproduzieren, logo, reprodução seria reprodução do mesmo e repetição seria uma repetição diferencial, que por efeito, sempre produz algo. (apud Lacan, 1964, p. 55).
Esse dado da adoração pode apontar para os registros próprios do amor e do cuidado no processo identificatório, mas também é preciso considerar os registros que nem sempre vêm à tona: os de hostilidade frente ao desamor e ao descuido, que por vezes sequer são reconhecidos como próprios do sujeito. “Onde ele estava, eu estava”, se o pai de Aurélio se fez ausente pelo suicídio, estaria Aurélio fadado a ausentar-se também? A autora aponta novamente para a dimensão identificatória que está em jogo na gramática psíquica de Aurélio; onde ele e o outro parecem estar unificados em um estado de indiferença. A concepção dessa vivência de indiferença é proposta por Luis Hornstein (2012), nesse encontro onde a criança não encontra em sua demanda ao adulto condições que reflitam a assimetria. A falta dessa assimetria essencial instaura no Eu um prejuízo quanto à condição de confiança e de percepção de si mesmo e do outro, que provoca impactos diretos nos recursos de enfrentamento da dor psíquica e na relação com a alteridade. Seria o caso de puro reflexo.
O momento em que Aurélio passa ajudar no sustento da família e na assunção da paternidade da própria irmã serve como mais um importante exemplo da confusão dos marcadores de tempo e subjetivação em sua vida, cujo ato desesperado o coloca em uma posição de sujeito que desconsidera suas reais condições, ainda em tenra idade. E é isso que escapa a Aurélio quando abdica de seu lugar infantil e de filho para assumir o lugar do pai, provocando uma intensa alteração de si mesmo, que não cessaria por aí.
A posteriori, Aurélio fala de sua tentativa de suicídio: “Aquilo é uma coisa gozada, é uma brutalidade contra si mesmo, uma coisa sem explicação”. Ainda no campo da incompreensibilidade diante do próprio ato, Aurélio acredita que seja algo da ordem de um destino inelutável. O suicídio do amigo, que lhe provocou a reação de desaprovação, em alguma ordem, diz também da desaprovação sentida diante do suicídio do próprio pai, que ainda não encontra verbalização. O uso da expressão inelutável por parte da autora me evoca também o sentido de diversos lutos que se impuseram uns sobre os outros, mas que não foram simbolizados apropriadamente.
“A história de vida de Aurélio ilustra o predomínio de uma economia psíquica sob a égide do traumatismo, ou seja, de insuficiência de ferramentas para ressimbolizar a realidade ou, para produzir de alguma maneira representações capazes de capturar a realidade quando a subjetividade se vê ameaçada pela ruptura de significações prévias que permitiram sua apreensão” (Kother, 2019, p. 218).
Garcia-Roza (p. 155), utilizando-se de Lacan, irá apresentar um entendimento da pulsão de morte como uma vontade de destruição direta, que não diz unicamente de agressividade, mas de uma vontade de destruição, vontade de recomeçar com novos custos, vontade de Outra-coisa. Essa brutalidade contra si mesmo pode dizer de uma vontade de destruição, que agora pode evocar um recomeço e uma possibilidade de, através da cadeia significante, falar e dar sentido à própria história.
O que a autora aponta como problemático quando Aurélio não vê as conexões entre a sua tentativa de suicídio e o suicídio consumado do próprio pai, para mim, diz mais acerca de dois importantes elementos: 1. do começo de uma manifestação de alteridade em Aurélio e 2. uma escorregada técnica, não se pretende estabelecer relações de causalidade entre A e B, mas fica implícito que o pai de Aurélio se matara devido à falência, no entanto, jamais poderemos saber se esse fora mesmo o caso, pois é esse o grande enigma que o suicídio impõe: na irreversibilidade da morte, ficamos sem respostas e simbolizações. Apenas em vida pode-se dar testemunho dessas manifestações ora destrutivas ora construtivas, permitindo que esse enigma possa ser, de fato, simbolizado e representado.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHEMAMA, Roland. (1995), Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas.
FREUD, Sigmund. (1890), Tratamento psíquico (Tratamento anímico). In: Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. São Paulo: Editora Autêntica.
FREUD, Sigmund. (1920), Além do princípio de prazer. Rio de Janeiro: Editora LP&M.
GARCIA-ROZA, Luiz. (2015), O mal radical em Freud. Rio de Janeiro: Editora Zahar.
KOTHER, Mônica. (2019), Decifro-me ou me devoro. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, Vol. 53, n. 4, p. 209–223, oct/dez, 2019. Disponível em: <Decifro-me ou me devoro: dor psíquica e autodestrutividade (bvsalud.org)>
LACAN, Jacques. (1964), O Seminário, livro 11. Rio de Janeiro: Editora Zahar.
NASIO, Juan-David. (2005), A dor de amar. Rio de Janeiro: Editora Zahar.
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