Pode-se gongar¹ um tipo de psicanálise?
O discurso de Paul B. Preciado em 2019 na Escola da Causa Freudiana já fora bastante difundido, até porque já se passaram quase seis anos desde que o filósofo queer e transfeminista estremeceu as paredes epistêmicas da psicanálise, colocando seus praticantes para pensar — ou não — em suas práticas clínicas, que, ao contrário do que se escuta por aí, é influenciada por muitos fatores sociais. No entanto, apesar do longo tempo e das diversas exposições e leituras feitas a respeito dessa fala, nada nos impede de continuar a trabalhar este discurso tão potente e simultaneamente, tão “polêmico”. Tenho considerações a fazer sobre dois espaços de estudo, diferentes em sua forma mas semelhantes em seu conteúdo. No espaço de estudo (1), como coordenador de uma das atividades, propus a leitura de “Eu sou o monstro que vos fala”, sendo o discurso de Preciado na íntegra, considerando que estaríamos diante de pessoas dissidentes de gênero e sexualidade como público alvo das atividades clínicas daquele espaço.
Antes de entrar nos aspectos próprios da experiência de leitura, acredito que seja importante falar sobre o que é o queer. Queer — enquanto teoria e orientação política — é um exercício de subversão de uma palavra que representava (e, em alguma medida, ainda representa) uma injúria, uma ofensa, tal como “sapatão” ou “viadinho” no português. A força subjetiva e social encontra sustentação ao encarar essas “ofensas”, na verdade, como elogios, um dado verdadeiro. A diferença principal entre a militância queer e a militância LGBT consiste dos projetos políticos que cada uma defende: a militância queer é antiassimilacionista, ou seja, não busca assimilação, reconhecimento de algum tipo de “igualdade” entre pessoas dissidentes de gênero e sexualidade e pessoas cisheterossexuais. O exemplo mais evidente disto se encontra na incessante reivindicação pelo “direito de amar” ou o “direito ao casamento igualitário entre pessoas homoafetivas”, vejam, o que se procura em um segmento da militância LGBT é claramente uma imitação de um dos principais ritos da norma cisheterossexual: o casamento, e de preferência o casamento monogâmico. A militância queer possui um caráter mais extremado, radical talvez, de se deter mais precisamente no desmantelamento desses mesmos ritos e instituições que sustentam uma suposta lógica que espera algum grau de docilidade para se manter hegemônico. No entanto, nem tudo são flores. O que consigo reparar após esses anos de estudo individual e de troca em ambientes de estudos com outras pessoas é que a teoria queer acaba se utilizando de um tipo de pensamento que é alvo constante de nossas críticas: o pós-modernismo francês. Os principais autores com quem tive contato, Preciado e Butler, flertam com um léxico que em determinados momentos pode ser do tipo “racha a cuca” e isso, em alguma medida, é preocupante no sentido do estudo que empreendo individualmente e da maneira como gostaria de compartilhar esses estudos aqui no Coletivo.
“Respeite meus parças trans ou eu vou me identificar como a porra de um problema” |
“Eu, um corpo trans, um corpo não binário, a quem nem a medicina, nem o direito, nem a psicanálise, nem a psiquiatria reconhecem o direito de falar sobre minha própria condição na qualidade de especialista, ou de produzir um discurso ou uma forma de conhecimento sobre mim mesmo, aprendi, como Pedro Vermelho, a língua de Freud e de Lacan, do patriarcado colonial, a língua de todos os que estão presentes nesta sala, e a quem agora eu me dirijo”. (PRECIADO, 2022, p. 14)
É atribuída uma certa radicalidade à experiência de Preciado — e, por consequência, às experiências de pessoas trans que modificam seus corpos através dos recursos disponíveis atualmente –, como se já não houvesse uma radicalidade na experiência de nos ser atribuído um nome, um gênero e um sexo antes mesmo de chorarmos pela primeira vez na vida. É certo quando dizem que somos “outrificados”, de fato, somos. Por nossos pais, por nossos cuidadores, responsáveis, professores. Somos imaginados por nossos cuidadores, um roteiro daquilo que gostariam que fôssemos ou fizéssemos já está escrito, e sobre isso, podemos recorrer a Freud em Introdução ao narcisismo (1914) para termos um breve panorama deste cenário:
“As coisas devem ser melhores para a criança do que foram para seus pais, ela não deve estar sujeita às necessidades que reconhecemos como dominantes na vida. (…) Ela deve concretizar os sonhos não realizados de seus pais, tornar-se um grande homem ou herói no lugar do pai, desposar um príncipe como tardia compensação para a mãe.” (FREUD, 1914, p. 37).
Nossos cuidadores, assim esperamos, desejam o melhor para nós. Porém, eles também esperam que os compensemos por seus sonhos e desejos não concretizados. Os cursos preparatórios para mães e pais não contam em suas ementas o tema das frustrações que acompanham certas expectativas. É comum a criança ser tratada não como um ser dotado de desejos e vontades próprias, mas como um objeto que precisa obedecer cega e respeitosamente às ordens dos responsáveis e cuidadores. Conforme Preciado (2020, p. 70), “a criança continua a ser considerada um corpo que não tem o direito de governar”, isto é, reclamamos um direito à autodeterminação de gênero e sexualidade, vejam, podemos pensar nos exemplos comuns de meninos que são introduzidos ao universo do futebol, porque é “coisa de homem” ou de meninas ao universo do balé e dos cuidados domésticos, porque é “coisa de mulher”.
“A polícia de gênero vigia os berços para transformar todos os corpos em crianças heterossexuais. Ou você é heterossexual ou a morte o espera. A norma faz a ronda ao redor dos recém-nascidos, exige qualidades femininas e masculinas distintas da menina e do menino. Modela os corpos e os gestos até desenhar órgãos sexuais complementares. Prepara e industrializa a reprodução, da escola ao parlamento.” (PRECIADO, 2020, p. 71)
Retomo a ideia de radicalidade envolvendo a experiência trans, sobretudo aquela que envolve as cirurgias de afirmação de gênero, claro, reconheço que vai ser uma comparação extremada, mas a lógica cisnormativa não vê nada de radical quando submete bebês designados ao gênero feminino à experiência de mais uma diferenciação. Falo sobre o furo das orelhas. Atribuições imediatas são feitas a partir da presença (ou ausência) de uma pequena joia pendurada na orelha. Vou compartilhar uma lembrança de infância: na saída da escola, geralmente uma pletora de vendedores se aglomerava, nessa ocasião, desejei um algodão doce e sem muita preocupação, pedi por um rosa ao vendedor, que estranhou. Ora, eu era muito pequena para sentir o que eventualmente chamamos de euforia de gênero, o vendedor estava me confundindo com um menino! E mais: estranhando porque um menino queria o algodão doce da cor rosa! Enfim, ele reparou que eu tinha um brinquinho e a confusão passou, e logo ele me entregou o algodão doce. Até com gênero mata-se uma fome.
A experiência no espaço de estudo (2) também se provou desafiadora, o livro que lemos na ocasião é de orientação lacaniana, então era muito difícil escapar dos operadores conceituais — porque até então sua utilização prática é completamente nebulosa — com os quais lacanianos se utilizam: falo, gozo, real, simbólico, semblante, sexuação. A coisa começa lenta, paciente e então, quando percebo, muitas palavras estão entrelaçadas umas nas outras sem muito sentido e explicação, é quase como se o “entendimento” delas fosse da ordem da intuição, quase como se não se tratasse de conceitos. Vou pegar o conceito que julguei mais importante naquele momento: sexuação. Ele é importante para entender como os lacanianos lidam com a diferença sexual e, por conseguinte, com as pessoas que subvertem essa diferença, seja através da cirurgia, do hormônio ou da mudança de nome e pronomes. Meu movimento, inspirado em exercícios outrora praticados no Coletivo, é o de tentar expressar, em no máximo cinco linhas, o que sexuação significa:
“A sexuação é um processo de atribuição feito pelo Outro — ou a partir do campo do Outro — que tem relação direta com a dissolução do Complexo de Édipo e com a articulação do sujeito com o falo. O falo é o significante que fundamenta as leis do inconsciente, é também o significante da falta; um Semblante que vem do campo do Real”. (FRANÇA, Rael. Notas de aula. Não paginado).
Não creio que seja possível extrair muita coisa disso — teórica e clinicamente — e que boa parte da intenção lacaniana em se comunicar através de códigos ininteligíveis ou inteligíveis apenas entre a própria patota é fruto de uma linha de pensamento e produção acadêmica que regozija dessa mesma dificuldade e incomunicabilidade em nome de aspectos “misteriosos, enigmáticos e poéticos” supostamente intrínsecos à psicanálise.
Percebo que poderia até brincar, fazer um paralelo entre o Lacanês e o Pajubá, do qual falei antes, mas caberia a pergunta: de quê os psicanalistas lacanianos tanto se protegem? Quando Preciado lhes pergunta em voz alta, quantos lá dentro do auditório se identificam como analistas homossexuais e/ou transsexuais, antes fosse o silêncio um denominador comum das reações, as risadas, as vaias e até um comentário comparando o filósofo a Hitler são evidências de que o campo não anda muito bem das pernas quando se trata de reconhecer que somos pessoas dotadas de marcadores — de raça, gênero, classe — antes mesmo de sermos psicanalistas.
“(…) Habitar esse estranho que é nosso corpo não é tarefa fácil para ninguém. Não à toa o corpo, por mais que seja também fonte de prazer, é um dos fundamentos do mal-estar. Não apenas porque é sexuado, mas também porque não o escolhemos, adoece, envelhece e morre, a despeito do nosso controle. Nas estratégias para habitá-lo se descortinam, na atualidade, inúmeros recursos, dentre os quais cirúrgicos e farmacológicos. Enquanto psicanalistas não somos juízes para absolver ou condenar as opções tomadas pelo sujeito. E também nossas hipóteses diagnósticas, como bem diz o nome, são hipóteses, não sentenças. Referem-se a defesas privilegiadas por um sujeito e não a degenerações ou doenças. E ainda, só podem ser levantadas no contexto de um processo psicanalítico em curso, servindo para que o analista, no caso, se oriente quanto ao seu modo de intervir. Isso serve a ele, não ao analisante. E é bom que se diga que para que o analista possa se emprestar a essa difícil função clínica, é preciso que ele pendure seu eu cheio de si, e de “gênero”, na sala de espera, e compareça como “trans”, ou seja, suporte mutante de todas as investidas que o desejo inconsciente pode operar na contingência da trans-ferência. (MAURANO, 2019, grifo meu).
Ambos os espaços de estudo que trouxe anteriormente carregam um ponto em comum: uma espécie de embaraço quando se trata de autorizar os planos de um analisante que visa se submeter às cirurgias de afirmação de gênero. Pelo menos dois argumentos sustentam tal embaraço: i. “a cirurgia não vai resolver a questão da diferença sexual, que está posta de base na subjetividade” e ii. “não se pode intervir no real do corpo”. Os recursos cirúrgicos e farmacológicos — logo, os campos práticos externos à suposta ilha da psicanálise — são evidentemente um problema para o fazer psicanalítico, nesse sentido, é preciso lidar com esse “sintoma” única e exclusivamente pela via da associação livre, é preciso que o analisante faça desse sofrimento um saber fazer. É necessária uma dose de ingenuidade — ou mesmo hipocrisia — para dizer que psicanalistas não absolvem ou condenam opções tomadas por um sujeito. Um recorte muito específico de psicanalistas é especialmente ferrenho na defesa de uma prática normativa que vê no analisante trans uma figura a ser tutelada, que deve evitar a todo custo a “transformação” no “outro” gênero.
Esse texto parece ser produto de um exercício contraintuitivo, considerando nossa orientação aqui, mas gostaria de ressaltar que essa é uma necessidade inerente ao estudo de gênero e da teoria queer em relação com a psicanálise e vice-versa. São dois campos que, como podemos ver, estão em conflito na maior parte do tempo, mas o meu exercício é pensar, através das críticas que a teoria queer fornece, de que maneira é possível oferecer uma escuta clínica para com pessoas dissidentes de sexo e gênero que não seja limitante, patologizante e tutelante.
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¹ “Gongar” é uma expressão no Pajubá que significa zoar, zombar, tirar sarro de alguém ou de algo. Pajubá é um dialeto que se origina de diversas línguas da África Ocidental e passou a ser utilizada principalmente como língua secreta entre travestis como forma de enfrentamento e defesa das repressões policiais que esse grupo sofria, no período da ditadura militar.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, S. (1914/2010). Introdução ao narcisismo. In Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras.
MAURANO, D. (2019). Uma resposta a Paul B. Preciado. Psicanálise & Barroco em Revista. Disponível em: <https://seer.unirio.br/psicanalise-barroco/announcement/view/145>. Acesso em: 26 Jan. 2025.
PRECIADO, P. (2020). Quem defende a criança queer? In Um apartamento em Urano: crônicas da travessia. Rio de Janeiro: Zahar.
PRECIADO, P. (2022). Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas. Rio de Janeiro: Zahar.
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