Sobre “Confusão de linguagens”, de Sándor Ferenczi (1932)
É digno de nota que em Ferenczi, o traumático é da ordem do sexual, em que um adulto viola uma criança, por conta da confusão de linguagens que existe entre ambos, onde um adulto lê erroneamente a brincadeira da criança, banhada em ternura, como sendo da ordem da paixão, do sexual. Podemos prolongar esta acepção e considerar traumático – o afluxo de pulsão e estímulos que atinge um psiquismo sem que este esteja preparado e tenha condições de suportar – todo tipo de violência que resulta em diferentes graus e níveis de fragilidade egóica: negligência, violência física, moral, psicológica, semântica.
O ineditismo da clínica ferencziana, tal como exposto acima, implica na constatação da existência de um outro modo de cisão do psiquismo, diferente do já conhecido mecanismo do recalque. Vale resumir: o recalque é a defesa privilegiada na neurose, responsável por tornar inconscientes determinadas representações que provocariam desprazer ao consciente; essas representações ficam mantidas no inconsciente, mas o afeto desvinculado dela vincula-se a outras representações, que conseguem encontrar meios de retornar à consciência através dos sonhos, atos falhos, esquecimentos, chistes e sintomas. O mecanismo com o qual Ferenczi irá se utilizar para ilustrar o mecanismo de defensa diante experiências de traumáticas é o da clivagem:
(...) exprime a resistência passiva que o paciente opõe às agressões do mundo externo e, por outro, representa a clivagem da pessoa numa parte sensível, brutalmente destruída, e uma outra que, de certo modo, sabe tudo mas nada sente. (Ferenczi, 1931, p. 88, grifo nosso)
O ego da criança se divide em duas partes que não se comunicam, no entanto, mesmo que evite o aniquilamento dela, a clivagem implica numa forma de automutilação psíquica, no sentido de afastar o evento traumático da consciência, mantendo-o inconsciente, mas simultaneamente, ao identificar-se com o agressor e introjetar a culpa e remorso que este sente e demonstra para a criança, com a clivagem, ela encontra-se na posição de vítima e algoz. E a “cereja do bolo” do desastre psíquico que desmorona o ego da criança consiste no chamado terceiro tempo do trauma, em que a criança, ao relatar a violência sofrida para um terceiro, geralmente quem ocupa o lugar de adulto de confiança, recebe como resposta o desmentido da violência, respostas como “fulano jamais faria isso!”, “você está inventando!” e daí em diante operam como o grande impeditivo de elaboração, que potencialmente poderia ajudar a dar vazão para o afluxo pulsional que um trauma de ordem sexual é capaz de provocar.
A resposta da criança, diante de uma experiência traumática que não recebe validação, reconhecimento e acolhimento de quem deveria protegê-la, pode ser de obediência absoluta ou uma birra que não se sabe explicar de onde vem ou seu porquê. A surpresa de Ferenczi ao aconselhar que seus pacientes reajam com ódio e defesa, no lugar de relutância, se dá justamente por conta da identificação ao agressor, esse gesto, que tanto afasta o evento traumático da consciência, também garante que a relação da criança com o adulto fica “preservada” ainda no campo da ternura, como se nada tivesse acontecido. Considerando o mecanismo da clivagem, reações aloplásticas, isto é, as reações enérgicas, que Ferenczi sugere acima, de ódio e defesa perante a violência sofrida são impossíveis (Ferenczi, 1932/2025, p. 26, grifo nosso), o que resta à criança é o mimetismo, uma reação autoplástica, em que, tal como o adulto, a criança se recolhe e se adapta à indiferença exibida pelo adulto, que desconsidera e invalida os efeitos que uma violação sexual pode provocar.
Quando Ferenczi, no começo do texto, fala sobre o analista se autorizar a receber críticas, especialmente oriundas dos pacientes, sobre o reconhecimento de erros cometidos no trabalho analítico e de se abster de cometê-los, é para ganhar a confiança dos pacientes. É na atualização da relação transferencial com o analista que se “estabelece o contraste entre o presente e o passado insuportável e traumático”. (Ferenczi, 1932/2025, pp. 20-21). O aspecto principal das neuroses traumáticas é o retorno/repetição da cena traumática, que manifesta o seu caráter atual, ela retorna enquanto reprodução alucinatória e não como memória objetiva pois não conseguiu se tornar passado, cristalizou-se enquanto presente no psiquismo. (Sales, Jôse; Oliveira, Regina de; Pacheco-Ferreira, Fernanda, 2013, p. 65). Tendo isso em mente, é importante estar em contato com proposições teórico clínicas que nos relembrem da importância do sentir com o paciente, com o tato, que Ferenczi tanto apostou, para que não entremos na teia de repetição do silenciamento, que provoca tanto sofrimento aos pacientes que vão ao nosso encontro.
Referências Bibliográficas
Ferenczi, S. (1992). Análise de crianças com adultos (Obras completas - Psicanálise IV). São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1931).
Ferenczi, S. (2025). Confusão de linguagens entre o adulto e a criança: a linguagem da ternura e a linguagem da paixão. Porto Alegre: Artes & Ecos. (Originalmente publicado em 1932).
Sales J. L., Oliveira R. H., Pacheco-Ferreira F. Clivagem: a noção de trauma desestruturante em Ferenczi. Arq. bras. psicol. [online]. 2016, vol.68, n.2, pp.60-70. Disponível em: <https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1809-52672016000200006>.
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