Comentário sobre "O que não tem nome" de Piedad Bonnett
Série de Autorretratos (2001) – Daniel Segura Bonnett
Tenho desenvolvido um apreço por livros curtinhos, leituras "rápidas", algo em torno de 100 a 200 páginas, e algumas leituras agradáveis recentemente têm contribuído para restabelecer meu contato com literatura num aspecto geral. Ler só teoria não é o bastante para ser um bom psicanalista.
Dito isto, hoje, pleno domingo, terminei de ler o pungente "O que não tem nome" de Piedad Bonnett, publicado em 2024. O que chamou minha atenção desde o primeiro momento era de que se tratava do relato de uma mãe que perdeu um filho para o suicídio. A ideia de uma leitura pelo ponto de vida daqueles que no jargão técnico, são chamados de sobreviventes, me pareceu muito interessante.
A autora não faz questão de esconder seu sofrimento e também não se mostra ingênua quanto ao processo de escrita misturado com o do luto. "Não o escrevi para me curar – porque nada pode curar a perda de um filho que teve de recorrer ao suicídio para cessar o sofrimento, o declínio e a incerteza quanto ao futuro –, e sim para tentar entender." Acabo compartilhando desse mesmo impulso, entender o enigma do suicídio foi o que me levou ao Ensino Superior e me concedeu um diploma e uma carteira profissional.
Além disso, Piedad entende que a escrita trouxe outros elementos à tona: a reivindicação do direito fundamental do ser humano ao suicídio e quanta coragem e dor podem habitar naqueles que sofrem de alguma doença mental.
Os primeiros momentos do livro são carregados de uma energia diferente, a autora não te prepara para o acontecimento, do mesmo modo que o suicídio, a morte daqueles que amamos, não nos prepara para esse acontecimento. Quatro palavras são comunicadas por uma ligação de telefone: "Mãe, Daniel se matou". A narrativa vai e volta, a família mais próxima – pais, irmãs e cunhado – adentram o quarto do rapaz, que ao mesmo tempo que parece tão profícuo e tão organizado, simultaneamente carrega consigo o vazio lúgubre que jamais será ocupado de novo. Mitski canta: "And I'm glad I left my room tidy, they'll think of me kindly when they come for my things." A mãe se pergunta como devem ter sido os últimos vinte minutos em que Daniel estava vivo, se estava ansioso, desesperado ou se qualquer fagulha de lucidez foi obscurecido por um exército de sombras. Os "manuais do luto" e suas eventuais fases falam de um momento de choque ou embotamento. Uma dissociação? Pensar em qualquer outra coisa, qualquer outro afazer que distancie essa informação do campo da consciência para evitar que a sequência de esfacelamentos persista.
As pessoas fora do "perímetro dos sobreviventes" parecem não fornecer um mínimo gesto de cuidado, tudo opera na lógica de burocratizações e regras e decoros que não podem ser rompidos, mesmo quando a situação pede por isso. Parece que algumas pessoas perderam aquilo que Ferenczi chamou de tato, de "sentir com". O atendente da companhia aérea é incapaz de prestar condolências em uma situação limite. "A vida cotidiana costuma ser rude", diz Piedad.
Na véspera da morte de Daniel, Piedade ganha um prêmio literário. As mensagens e e-mails de congratulação misturam-se logo em seguida com as condolências, com os sentimentos. É um costume norte-americano aparecer na casa de enlutados e vítimas de quaisquer outras desgraças com comida feitas à mão. É, segundo a autora, uma forma de velar pela sobrevivência do enlutado, para que não se preocupem com os afazeres domésticos, para que se possa sofrer o abatimento que a tristeza do luto provoca. Ao saborear um chocolate, degustarem de um molho, se dão conta: "estamos vivos."
O grosso da história de Daniel vai ficar reservado para aqueles que optarem por se aventurar nessa leitura difícil emocionalmente, mas muito bonita literariamente. Dentre esse grosso, algo chamou a minha atenção: como existem profissionais de saúde mental ruins, inaptos e que deveriam ponderar seu lugar nesse campo de cuidado. Há um relato de um psiquiatra que parece indisponível em todos os âmbitos clínicos possíveis diante de uma mãe preocupada com o estado de saúde de seu filho, os atendimentos duram 10 minutos. Medicações são suspensas sem cuidado, sem plano de ação caso algo dê errado, os pacientes ficam deixados à deriva, à própria sorte.
Por fim, a forma como Piedad não se envergonha diante da solução que seu filho encontrou para seu sofrimento é algo digno de ser compartilhado aqui, tal como em 1800 e bolinha, anunciar que um membro da família cometeu suicídio – defenestrou-se – é quase como uma espécie de maldição intergeracional, algo que autores como Abraham e Torok vão defender como conceito de cripta ou tumba geracional: segredos, informações, histórias que não podem ser passadas adiante dentro de uma família, mas é justamente o ato de escamotear a verdade que ela insiste em se tornar presente, tal como o inconsciente enquanto construto arqueológico vivo, do modo que Freud teorizava. "A notícia de que fora um suicídio faz com que muitos baixem a voz, como se estivessem ouvindo falar de um delito ou pecado. Um parente me telefona para dizer que sente muito pelo acidente. Eu, tanto encorajada pela dor, não deixo passar o termo que escamoteia a verdade: não foi um acidente, digo."
Encerro esse breve comentário com uma citação, presente no livro, de Salman Rushdie:
"A vida deve ser vivida até que não possa mais ser vivida."
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