Entendimento e Estranhamento na obra Kleiniana

'Number 7, 1951', de Jackson Pollock

Um dos pontos positivos em fazer leitura em voz alta em grupos de estudo é que as palavras parecem operar tais como vetores projetivos-introjetivos. O que quero dizer com isso? A impressão é que ouvir o que está sendo lido enquanto se lê parece produzir uma espécie de costura com tudo aquilo que já fora lido, estudado, elaborado e introjetado em momentos e espaços anteriores. Decidi redigir esse breve comentário por conta da leitura efetuada no grupo de técnica psicanalítica, em que estamos no detendo no livro “Introdução à obra de Melanie Klein”, de Hanna Segal. Na ocasião, fazia a leitura do capítulo 3, que nos apresenta a posição esquizoparanoide, antes de chegarmos aos pormenores da discussão, creio que é válido situar em que terreno caminhamos ao lermos Klein neste momento.

A autora propõe que no momento do nascimento, já é possível defender a existência de um ego suficiente que pode experimentar ansiedade, que se utiliza de mecanismos de defesa e que é capaz de formar relações de objeto primitivas na fantasia e na realidade, um exemplo disto, inclusive, pode ser considerado com a experiência alucinatória que o bebê vive quando alucina estar mamando o seio. No entanto, a parcimônia é importante na construção teórica: isso não significa que este ego primitivo se assemelha de alguma maneira com qualquer grau de um ego bem integrado de um bebê de seis meses de idade, nem como o de uma criança ou de um adulto plenamente desenvolvido.

O primeiro eixo deste comentário, o Entendimento, começa a se esboçar diante da consideração de que o ego primitivo, com todas as suas características, é sobretudo lábil, em estado de fluxo constante e com um grau de interação que muda de um dia para outro, ou mesmo de um momento para outro (Segal, 2025, p. 38). Mais adiante, fica explícito que, considerando tamanha volatilidade, o ego imaturo do bebê é exposto tanto às ansiedades internas – provocadas pela polaridade inata das pulsões –, quanto pelos impactos próprios da realidade externa. Essas primeiras experiências de ansiedade encontram como resposta e defesa, além da deflexão da pulsão de morte, em uma cisão do ego, que projeta essa agressividade própria da pulsão de morte para fora, em direção ao objeto externo original, que é o seio. Além disso, a libido também é projetada para o seio, de modo que constitui esse objeto como aquele que irá satisfazer os instintos do ego mobilizados pela pulsão de vida. Ou seja, o seio representa simultaneamente uma ansiedade externa persecutória e também a origem das experiências de gratificação e alimentação, com isso, sanamos uma dúvida que havia sido comunicada outrora no grupo, a saber, da simultaneidade da apreensão que o bebê faz do seio.

Em contraposição à clareza objetiva do primeiro eixo, o segundo eixo, o do Estranhamento, vimos uma diferença qualitativa ao considerar a apreensão de determinados conceitos teóricos enquanto puramente conceitos teóricos, isto é, quando alguns de nós nos deparamos com a apreensão clínica, prática desses conceitos, algo parecia fora de lugar. A saber, quando Segal começa a trazer elementos de um caso de uma menina de 5 anos, passamos a entrar em contato com o pensamento clínico da autora, ou seja, como ela articula teoria com o fazer clínico. O que, inclusive, abre margem também para um debate sobre uma suposta “facilidade” em atender crianças, mas esse debate ficará reservado para outro momento.

Dois pontos chamam a minha atenção conforme prossigo com a leitura: i. “Nessa época, ela estava particularmente preocupada com a questão da gravidez” (Segal, 2025, p. 42); ii. A interpretação de que um presente que a paciente deu para a analista, representava na verdade a oferta de um pênis, como forma de reparar uma bagunça que fora feita em seu consultório na sessão anterior. Por conta de já ter lido alguns artigos da Klein antes desse movimento de grupo, creio que estou pensando no artigo de 1928, “Estágios iniciais do conflito edipiano”, em que ela se detém justamente nos movimentos pulsionais que a criança faz em direção aos seus objetos primários e como ela lida com cada um deles. Penso que por já ter lido esse tipo de articulação teórica antes, o que Segal está trazendo não parece ser tão inédito e por esse mesmo motivo, parece menos estranho, mas ainda assim, estabelecendo critérios de “etapas” de estudo, senti falta de uma preparação de terreno entre o salto do momento teórico para o momento prático. Um dos nossos colegas aponta para algo próprio dessa lógica: não questionamos esse modo de operação quando lemos Freud! Com isso, eu esclareço o que chamou minha atenção em relação ao primeiro ponto, “como assim uma menininha de 5 anos está preocupada com a questão da gravidez?”, lembro em seguida que Freud levou muito a sério as teorias sexuais infantis, que, curiosamente, ponderam sobre como os bebês são gerados!

Ora, o uso de Estranhamento aqui não é por acaso, foi só depois do comentário do colega que foi possível relembrar de algo que pode passar bem batido no nosso exercício, tanto de estudo quanto de prática: possuímos um inconsciente que está muito ativo, muito bem, obrigado. É plausível que mecanismos de defesa estejam em plena operação quando estamos em contato com materiais que versam justamente sobre isso: psiquismo e mecanismos de defesa. O esquecimento de que Freud escrevera sobre as teorias sexuais infantis, tema que por sinal me é muito caro, diante um recorte clínico específico, em algum grau está versando sobre ansiedades as quais eu certamente prefiro não acessar, e com isso, é infinitamente mais confortável jogar isso na conta do texto, que está sendo ou insuficiente demais ou esquisito demais.

Se todo estranhamento é uma forma de reconhecimento, tal como unheimlich é da ordem de algo que já fora heimlich, gostaria de deixar a sugestão aos colegas que se ofereçam mais ao exercício da leitura dos materiais no grupo de técnica, justamente pelo constrangimento que esse exercício pode provocar, constrangimento que é próprio das produções dos nossos psiquismos. Estamos em um ambiente suficientemente seguro para isso.

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