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Sarah Bowman Cat Amongst The Cushions
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Percebi, conforme preparava este material¹, que fiz a indicação de um subcapítulo e, quiçá, de um autor, que faz parte do que eu chamaria de estudos avançados em psicanálise. O Akhtar leu infinitamente mais do que eu li, e seu acesso aos materiais protegidos sob a tutela da IPA é maior que o meu, mas, certamente eu também tive acesso a textos e outras discussões que provavelmente ele não teve ao longo dos últimos anos. Podemos somar essas experiências, sem a necessidade de qualificá-las como melhores ou piores. De qualquer forma, os eixos teóricos que versam sobre as relações objetais e o ambiente (Klein; Winnicott) e a dimensão intersubjetiva da clínica (Ogden) são o ponto nodal do material de leitura que propus a vocês.
Este item é o desdobramento final de um longo capítulo que aborda o silêncio na clínica, e também em contextos socioculturais extra-analíticos. Talvez a leitura do capítulo como um todo deva ter despertado alguma forma de desafio. Após ter lido esse livro inteiro, ainda possuo alguma dificuldade em situar qual o “pé” teórico clínico que sustenta o trabalho do autor, mas, seguindo o que ele verbalizou em alguma aula para a IPA¹, é possível considerá-lo como um psicanalista integrativo. Só de sairmos dos adjetivos que levam nomes de autores (ou escolas teóricas), já considero um grande passo.
Suponho que a maioria não esteja familiarizada com o conceito de clivagem ou de identificação projetiva, apesar de ter sido brevemente abordado no artigo “O que é ser um bom psicoterapeuta?”. Caso queiram que eu forneça uma breve explicação para um ou ambos os conceitos, levantem a mão do Meets.
A clivagem é um mecanismo de defesa de tipo primitivo, que acontece quando o Ego ainda está em desenvolvimento, e por conta disso, se encontra ainda muito fragilizado. É uma cisão do Ego diferente do mecanismo do recalque, não há associação entre as partes que ficam separadas uma da outra, elas voltam de maneira diferente na clínica, diferente da clínica do recalcamento, onde a dimensão de um conflito é mais constatável. É reconhecido com mais frequência na clínica com borderlines, vivências de despersonalização, casos de fundo mais traumático.
Identificação projetiva é também um mecanismo de defesa de tipo primitivo, este propriamente estabelecido por Melanie Klein, em que o bebê projeta partes indesejadas ou negativas de si para outra pessoa (especialmente as figuras de cuidado mais próximas), levando esta pessoa a agir conforme o que foi projetado, conforme o nome, identificando-se com a projeção. Na clínica, também associado com experiências de clivagem, é comum esse tipo de mecanismo ser utilizado quando algum afeto não pôde ser simbolizado, sendo atuado dentro do contexto analítico, o analista, ao reconhecer e identificar-se com a projeção, pode então dar nome, significado a essa experiência até então desconhecida do campo afetivo-inconsciente, mas conhecida no campo físico-consciente.
O silêncio serve a muitos propósitos ao paciente. Serve também ao analista. Sigamos (Akhtar, 2012/2016, p. 93):
O silêncio do analista nem sempre é vivenciado pelo paciente como gentil e útil.
O silêncio do analista pode ser devido a sentimentos contratransferenciais de tédio, indiferença ou hostilidade e, dessa forma, podem ferir o paciente.
O silêncio do analista pode ser uma resposta retaliatória ao silêncio do paciente e pode contribuir para um impasse não verbal na análise (Glover, 1955).
Os itens acima, por exemplo, falam de algo que pode passar despercebido na nossa prática clínica: como nos sentimos diante dos pacientes, como o nosso inconsciente pode orquestrar ações ou inações, de modo a agredir, punir, torturar nossos pacientes. Isso não faz de nós psicanalistas e psicoterapeutas inerentemente ruins, mas é preciso que estejamos em contato com nossa parte negativa-recalcada-supostamente inacessível, a fim de não assumirmos o lugar de Superego mal dos nossos pacientes.
Junto a essa noção, também é preciso que tenhamos estabelecido uma história pregressa e uma hipótese diagnóstica para nossos pacientes, para além do habitual eixo: “é histérica porque apresenta muitas queixas referentes ao corpo, é histérica porque aponta o furo no Outro”; “é obsessivo porque pensa muito e faz pouco, é obsessivo porque submete seu desejo ao desejo do Outro”; “é psicótico pois rompeu relação com o mundo externo, produzindo delírios e alucinações, foracluiu o Nome-do-Pai”. Utilizar-se dessas sequências lógicas para estabelecer diagnóstico, de acordo com diferentes linhas de pensamento não está errado, mas, dentro da psicanálise, não podemos perder de vista que grande parte da sustentação sintomática dos nossos pacientes se origina pelos tropeços, fracassos ou excessos das relações de cuidado e limite em terna infância. O item a seguir exemplifica o que quero dizer:
- O silêncio do analista, se prolongado, pode ser especialmente doloroso para pacientes com privações precoces na infância e com a resultante atitude de fixação oral. Tendo em vista que eles são propensos a introjetar tanto as palavras quanto os silêncios do analista (Zeligs, 1961), a internalização excessiva desse último tipo pode incrementar seu próprio vazio.
Ter o reconhecimento da história pregressa dos pacientes, no tocante às experiências da primeira infância e das relações com as figuras de cuidado/limite (essa nomeação é um esforço da minha parte para romper com o uso cristalizado de figuras “maternas” e “paternas”) pode nos servir de baliza no que se refere ao manejo dos silêncios que aparecem em sessão, alguns silêncios podem oferecer um ambiente-continente que o paciente estará experienciando pela primeira vez na vida; outros podem representar uma angústia desoladora.
Tenho um exemplo que não fala diretamente sobre silêncio, mas que se aproxima da dimensão afetiva que o contexto analítico pode provocar. Minha internet oscilou levemente em uma sessão com uma paciente bastante melancolizada que atendia há algum tempo, o suficiente para cortar parte da conexão da sala, a minha imagem congelou para ela e ela não conseguia me ouvir, mas eu conseguia ouvi-la chamando por meu nome como se eu tivesse encerrado a chamada bruscamente, como se eu tivesse desaparecido naquele breve instante, era perceptível o sentimento de desamparo e abandono que ela experienciou, mesmo que sem interferência ativa da minha parte. Um silêncio imposto pelas conexões extra-analíticas também pode provocar efeitos.
“(...) O silêncio do analista pode tanto auxiliar como prejudicar o processo analítico. Um silêncio em momento inapropriado e motivado por aspectos contratransferenciais pode perturbar o processo (como também pode uma intervenção verbal imprudente). Um silêncio cuidadoso, pelo contrário, pode impulsionar o processo (como também pode uma intervenção verbal apropriada). Isso nos diz que o silêncio do analista funciona muito como as suas palavras. Entretanto, devido à sua “invisibilidade", maus usos do silêncio e erros via silêncio são observados com menos frequência prática e pouco publicados na literatura.” (AKHTAR, 2012/2016, p. 94, grifo meu).
Por fim, gostaria de esticar as referências e trazer um curtíssimo texto de Ferenczi, que sofre com escolha de tradução antiquada, o texto “Talkativeness” de 1915, aqui traduzido como “Loquacidade”, nos apresenta uma dimensão problemática em relação à associação livre e, por consequência, aos problemas de um analista manter-se em silêncio. Eu trocaria o título de Loquacidade por “Falatório”: “A loquacidade (o falatório) manifestou-se em vários pacientes como um modo de resistência. Eles discutiam a torto e a direito, superficialmente, sobre toda espécie de coisas insignificantes, a fim de evitar a abordagem, em palavras ou em pensamentos, do que era importante”. (FERENCZI, 1915, p. 239, grifo meu).
Isto é, a associação livre não é tão livre assim, por vezes, a “escolha” que um paciente faz de um tema levado para a sessão pode servir aos interesses do Ego de manter determinados conteúdos recalcados, o que poderíamos chamar de uma manutenção da superficialidade psíquica. Freud utilizava muitas metáforas bélicas para explicar a cena analítica, ele tem razão. Travamos uma batalha contra o inconsciente e a resistência do paciente, é preciso que o analista seja uma figura ativa, presente enquanto escuta de modo uniformemente equiflutuante os conteúdos das associações, desse modo, ao nos depararmos e identificarmos um paciente que vem para a sessão falar “abobrinha” ou “coisa com coisa” como gosto de dizer, é importante que possamos sair da posição silenciosa e indicar o que está acontecendo na sessão.
NOTA
¹: Texto apresentado ao Clube Independente da Estácio de Sá Campus Maracanã no dia 25 de Fevereiro de 2026.
²: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=s_MOjvlF92Y
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AKHTAR, S. Escuta psicanalítica: métodos, limites e inovações. São Paulo: Blucher, 2016.
FERENCZI, S. Loquacidade. In. Obras Completas de Sándor Ferenczi, Psicanálise II. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.
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