Supervisão
“(...) as dificuldades contratransferenciais do candidato não podem ser resolvidas em supervisão. Entretanto, a supervisão pode ser um estímulo eficiente para autoanálise e trabalho continuado na própria análise pessoal”. – Pegeron, 1996
A prática da supervisão é conhecida como um dos três pilares da prática e formação psicanalítica, que foi proposto por Max Eitingon, na ocasião da abertura da Policlínica Psicanalítica de Berlim, junto da análise pessoal (neste caso, a análise didática) e da apresentação de seminários teóricos para os pares. É digno de nota que as interpretações nas nomeadas supervisões da época continham um caráter próprio de análise selvagem, “era comum recorrer ao expediente psicanalítico para realizar interpretações de cunho clínico mesmo a respeito de textos e casos em circulação (...) um misto de análise do analista “a céu aberto” e recomendações do estilo supervisão” (LIMA, 2019, p. 300). A supervisão no contexto de Berlim era voltada para a formação de novos quadros de psicanalistas, mas de psicanalistas que estariam referidos a institutos, associações e sociedades, uma espécie de “credenciamento” para transitar entre as policlínicas e ambulatórios de outros países. A supervisão no contexto da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), que é considerada o órgão regulador da psicanálise, tem um lugar mais “privatizante”, ou seja, os analistas associados à IPA tramitam apenas em torno dela, ou apenas em torno da própria Instituição associada. Esse movimento de formação de psicanalistas é o que permitiu não apenas a expansão do freudismo, mas como o aumento da quantidade de analistas em atividade em toda a Europa, passando de um discreto número de 10 analistas em 1910 para mais de 500 no fim dos anos 30. (ibid.)
Minha intenção, aqui, é a de compartilhar as habilidades e capacidades que a prática enquanto supervisor/supervisionando (e acompanhador/acompanhante em outro espaço) me forneceu e tem fornecido desde Setembro do ano passado até o momento da escrita deste material. Estou utilizando dois materiais primordiais para compor esse escrito, o livro Psychoanalytic Supervision, de Nancy McWilliams e trechos do livro Escuta psicanalítica, de Salman Akhtar, que alguns de vocês já conhecem por conta da minha apresentação sobre o silêncio em análise. É digno de nota que, a partir das considerações de McWilliams, a inauguração da supervisão psicanalítica constitui também a inauguração da supervisão clínica como um todo. Ou seja, é um livro que profissionais de quaisquer linhas teóricas possam usufruir, mesmo com o recorte psicanalítico. Para concluir a digressão, concordo plenamente com a autora quando ela defende que a “eficácia terapêutica correlaciona-se mais com aspectos relacionais do que com a ‘marca’ do tratamento” (MCWILLIAMS, 2021, p. 1). Dito isto, vamos começar com uma definição do que é a supervisão:
“Um método educacional onde um profissional com mais conhecimento, experiência entra em uma relação com um profissional com menos conhecimento e menos experiência, para aprimorar a prática e habilidades conceituais desse profissional jovem; essa relação é tipicamente avaliativa e hierárquica, prolonga-se com o tempo, e envolve com monitoramento de qualidade e controle de qualidade.” (MCWILLIAMS apud BERNARD; GOODYEAR, p. 2, tradução minha, grifo meu).
O escopo avaliativo e hierárquico pode ser assustador – e geralmente é –, mas a existência de uma avaliação e de uma verticalização na relação entre supervisor e supervisionando que não implica em uma forma de doutrinação da prática clínica, ou seja, que o supervisionando deva trabalhar como se fosse o supervisor, o que não é o caso e jamais será. Desse modo, conforme havia exposto em outro encontro, devemos considerar a existência de psicanálises e que uma prática psicanalítica ortodoxa tem potencial de provocar mais malefícios do que benefícios, tanto a um tratamento quanto a um espaço de supervisão, que também incorre em transferências e contratransferências, positivas e negativas.
Um dos eixos importantes da supervisão consiste na criação de uma aliança feita entre analista e analisando, uma aliança que é construída no entendimento mútuo dos objetivos do tratamento, como terapias psicodinâmicas funcionam, e sobre o que esperar dos respectivos papéis do analista e do analisando no processo terapêutico. Pode parecer inusitado pensar em termos de “entendimento mútuo”, mas, se recorrermos a Freud em um dos textos técnicos, vemos que o tratamento psicanalítico é explicado de maneira pormenorizada, de modo que aquele que busca o tratamento possa decidir, pelo menos a nível consciente, se gostaria ou não de embarcar nessa viagem para as profundezas de si que moldam uma análise.
“(...) a psicanálise requer longos períodos de tempo, semestres ou anos inteiros, mais longos do que espera o paciente. Por isso temos a obrigação de revelar esse fato ao doente, antes que ele se decida finalmente pelo tratamento. Considero mais digno, e também mais adequado, se já de antemão o prevenimos, sem pretender assustá-lo, acerca dos sacrifícios e das dificuldades da terapia analítica, privando-o assim de qualquer direito de afirmar depois que foi atraído para um tratamento cuja extensão e significado ele não conhecia. Quem se deixa intimidar por essas informações se revelaria depois inapto, sem dúvida.” (FREUD, 1913, p. 173).
Ora, também é importante que o profissional analista saiba quais são os pormenores do tratamento psicanalítico, caso contrário, pode-se incorrer naquilo que Ferenczi (1933, p. 113) apontou sabiamente: a possibilidade de que nossos pacientes sejam mais analisados que nós mesmos. Aprendemos a praticar psicanálise através da nossa própria análise, mas as contingências que envolvem a supervisão também colocam em evidência uma outra maneira de aprendizado, enquanto nas análises pessoais aprendemos in loco, a supervisão reserva um espaço a posteriori, em que o atendimento já aconteceu, em que o profissional escolhe, recolhe, recorta, costura aquilo que quer apresentar, seja do atendimento, seja de suas dificuldades clínicas.
Considerando a importância do aspecto relacional que sustenta a prática da psicanálise, é preciso que reconheçamos o aspecto relacional que sustenta a prática da supervisão, isto é, a forma como os elementos são comunicados e recebidos tem um valor muito grande, para além das habilidades e capacidades ensinadas, a maneira como o supervisor fala, escuta e acolhe é o que pode produzir maior vinculação, mais do que se imagina. Para tanto, é importante que aquele que supervisiona esteja de acordo que supervisionar requer mais maturidade, conforto em ocupar uma posição de autoridade e uma capacidade de maior julgamento nuançado, comparando-se com o trabalho clínico. Assim como a psicanálise é vista como um processo de pós educação (FREUD, 1917, p. 597; FERENCZI, 1928, p. 14), a supervisão pode ser considerada como um tipo íntimo de educação, supõe-se a relação entre um profissional com mais experiência com um profissional com menos experiência, podemos pensar numa relação propriamente educacional, em que um professor oferece insumos de conhecimento para o aluno que está em processo de aprendizado. Numa supervisão, oferecem-se coisas como: suporte, a promoção de honestidade, prover informações, ensinar habilidades, estimular sensibilidade ética, socializar colegas para um ethos psicanalítico (em resumo, propor que se pense psicanaliticamente diante de exposições as quais pensaríamos num registro senso comum), e, abordado com menos frequência que deveria, impedir o burnout do psicanalista. (MCWILLIAMS, 2021, p. 3)
É impossível falar de supervisão sem falar dos aspectos mais difíceis em ser um analista. É preciso aprender a lidar com as tormentas negativas de pacientes em situações miseráveis, como manter a autoestima quando se é implacavelmente desvalorizado, como reconhecer e lidar com o fundo de verdade nas reclamações dos pacientes a nosso respeito, como tolerar sentimentos negativos e estranhos a nós mesmos, tolerar incertezas, como estabelecer limites com pacientes que se sentem feridos com limites razoáveis… A lista de problemas, dificuldades e momentos de “engasgo” prático pode se estender linhas adiante. O que gostaria de enfatizar aqui é que muitos desses pontos podem ser extremamente demandantes para clínicos que estão começando a atender recentemente no escopo psicodinâmico. É comum que a atenção do clínico iniciante fique exclusivamente voltada para o âmbito das transferências – que, claro, tem sua devida importância, mas não só –, é preciso prestar atenção também nas complexidades emocionais que surgem por conta da relação terapêutica, isto é, levar em consideração aspectos negativos não tão conscientes, e que justamente são aspectos os quais negamos a existência enquanto estamos atendendo. Para fechar a lógica própria dos atendimentos, é preciso que o profissional iniciante em tratamento psicanalítico consiga integrar a capacidade de ser quem se é de forma autêntica enquanto ocupa um lugar que convida os pacientes a transformá-lo em seja lá quem for que os pacientes precisam que o terapeuta seja.
Ao supervisor, o grande desafio envolve equilibrar feedback crítico e apoio emocional. É preciso que o supervisor instigue o supervisionando a continuar aprendendo, apesar do fato de que qualquer conhecimento, especialmente novos conhecimentos, são recebidos como impactos na autoestima. Quantos de nós já não passamos pelo sentimento esmagador de que não sabemos de nada? De que estamos fazendo tudo errado? O convite psicanalítico, de forma paralela e paradoxal, é que o não saber é bem-vindo, é constitutivo, aceitar a existência do inconsciente significa assumir que existe algo de nós que é desconhecido, não sabido, mas isso não significa que esse dado é um destino fixo e imutável, em termos freudianos, a psicanálise é também uma forma de resgatar, reaver, reconstruir muitas dessas lacunas. Como já tive a oportunidade de apontar para uma amiga: só podemos saber de algo quando ainda não sabemos. A capacidade de aprendizado, ignorando sem desconsiderar o eixo biológico-desenvolvimental, depende bastante do nosso interesse em aprender e em aceitar, com humildade e menos autocomiseração, de que não sabemos de tudo. O que vai ditar a qualidade emocional de uma supervisão gira em torno da autopercepção e cuidado empregado pelo supervisor: a capacidade de ter tato, cordialidade e encontrar as oportunidades certas ao fornecer informações que o supervisando precisa saber naquele momento. É digno de nota que até o momento, minha experiência com supervisores foi em um geral positiva, com algumas agruras aqui e ali. Atualmente, minhas agruras têm girado em torno do tom da supervisão. Antes de trocar de supervisor, em meados de Março deste ano, eu sentia que o fato da supervisão ser individual estava sendo sufocante, ou que, no máximo, meu supervisor me permitia vomitar uma sessão inteira, para então entrar com os apontamentos, dúvidas e demais aspectos. Ele fornecia uma gama interessante de indicações e autores os quais eu não tinha acesso, mas algo parecia fora de lugar. Então, na supervisão nova a qual tenho participado, estou eu e outras duas colegas. Apresentamos 1x por semana e a supervisora trabalha de forma mais dinâmica, interrompendo com mais frequência. Tem funcionado até o momento. Mas algo a respeito do tom da supervisão com ela refere-se a um apontamento que aparece com certa frequência, tanto para mim quanto para as outras colegas: “cuidado para que sua intervenção/pergunta/etc não carregue um fundo super-egóico”, isto é, cuidado para que a intervenção/pergunta/etc não reforce algum aspecto do paciente que já esteja negativamente carregado super-egoicamente, como, por exemplo, uma dinâmica mãe-filho em que a mãe faz cobranças excessivas, desmedidas e impacientes. O que ela alerta é que não ocupemos o lugar transferencial desta forma. Só que, paradoxalmente, esse aviso constante, em si mesmo, também pode operar como uma injunção super-egóica em nós, que estamos atendendo. Pensamentos do tipo: “meu deus, será que estou fazendo merda esse tempo todo?” ou “meu deus, será que esse paciente está piorando por causa disso e eu não sabia?” podem aparecer por conta desse tipo de apontamento, ou por conta da maneira como a supervisão se sustenta: abrindo feridas narcísicas ou expondo-as, não sei o que seria pior. Dito isto, tenho estado atento a esse tipo de paradoxo e construindo uma espécie de fortalecimento do Ego, pelo menos a nível consciente eu sei que não vou fazer uma intervenção ou apontamento que produzirá malefícios ao meu paciente; mas penso que, a nível inconsciente, o surgimento de traços sádicos, cruéis, super-egóicos e afins podem colaborar no andamento de uma análise, se convidarmos nossos pacientes a comunicar seus sentimentos hostis para conosco, partindo do pressuposto que, diferentemente das figuras parentais, não levaremos esses sentimentos negativos para o coração, iremos sobreviver a eles (DIAS, p. 534) – e isso faz toda a diferença. Ultimamente, tenho visto com outros colegas, uma espécie de constrangimento em movimentos que são próprios da psicanálise, como por exemplo explorar aspectos edípicos e atualizações em transferência. O constrangimento, associado com o medo de intervir, perguntar, apontar, interpretar, é o que de fato estrangula análises e impede seu avanço. É preciso confiar na nossa própria capacidade de amarração conceitual e técnica, confiando também na nossa capacidade de sobreviver aos ataques dos pacientes, que, retomando o que trouxe antes sobre pessoa física e jurídica, não é para a pessoa física que os ataques são direcionados. Quando sobrevivemos, os pacientes aprendem muito conosco.
Para concluir, gostaria de trazer um comentário importante de Salman Akhtar (2016, p. 18), a respeito da escuta analítica em supervisão e da escuta em situações não clínicas: “Na supervisão, devemos restringir nossa escuta analítica ao controle do material do paciente e do relacionamento paciente-analista, eliminando a especulação acerca dos objetos internos do analista e de sua personalidade em geral”. Esse é outro ponto de possível debate, que inclusive aponta para uma contraposição à proposta de McWilliams sobre a criação de um ethos psicanalítico. Até o momento, eu ofereci uma escuta de supervisor para pessoas próximas do meu ciclo social, em razão de atividades em espaço de formação e, também, por confiança. O fato de serem pessoas próximas, que confiam em mim, me permitiu a possibilidade de apontar para elementos próprios do psiquismo dessas pessoas enquanto analistas. Podemos pensar que, quando entramos em sessão, a nossa pessoa passa do estatuto físico para o jurídico. Discordo da leitura lacaniana que situa o analista enquanto mera função, esvaziada de lugar e de sentido. Comparecemos e muito enquanto pessoas analistas, mas é preciso saber quem está escutando. O Rael pessoa e o Rael analista são substancialmente diferentes. Um exemplo que posso compartilhar brevemente é o de uma colega que atende um caso com algumas questões de ultrapassamento de leis, e que muito do conteúdo das sessões girava em torno justamente dessas transgressões, em determinado momento, aponto para a colega que talvez parte do interesse dela em descobrir se o que era relatado era verdade, podia dizer respeito a algum prazer subjacente, de fundo inconsciente, em testemunhar, com absurdez, as transgressões cada vez mais estapafúrdias do paciente. É digno de nota que, por conta da nossa proximidade, esse apontamento foi recebido, acolhido, reconhecido e após isto, o manejo com o caso passou a tomar outro rumo, mais produtivo. Estar em supervisão é uma maneira de se expor bastante semelhante à exposição em uma análise, mas é importante salientar que eu apenas apontei para a possibilidade de algo estar acontecendo a nível inconsciente, não propus interpretações sobre o que o caso provocava na colega, mas que um comportamento não reconhecido, isto é, inconsciente, produz efeitos diretos na relação terapêutica. Talvez esse seja um exemplo de postura que leva em consideração um ethos psicanalítico, mas que reconhece os limites do espaço da supervisão. Para encerrar, gostaria de trazer uma revisão proposta por Akhtar a respeito dos passos da supervisão:
“(i) o supervisor realmente escuta como um analista durante as horas de supervisão, (ii) essa escuta produz dados importantes sobre o ego de trabalho analítico do candidato, além de, obviamente, sobre o processo analítico entre ele e o paciente, (iii) embora escutar analiticamente possa originar especulações acerca da personalidade do candidato, o supervisor percebe que ele carece de dados corroborativos, não tem consentimento do candidato para comentar sobre a sua personalidade e que ele não é analista do candidato, e (iv) embora ele possa (e deva) apontar os pontos cegos e as resistências contratransferenciais do candidato, suas observações “interpretativas” são melhor limitadas ao impacto dessas dificuldades sobre o processo de tratamento e supervisão.” (AKHTAR, 2016, p. 236).
Espero que com esta breve exposição, eu possa ter possibilitado uma visão panorâmica, porém aproximada do que consiste a prática de supervisão.
Texto escrito para o Clube de Psicologia da Estácio Maracanã, 20/05/2026.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AKHTAR, Salman. Escuta psicanalítica: métodos, limites e inovações. São Paulo Blucher, 2016.
DIAS, Elsa. Da sobrevivência do analista. Natureza Humana, Vol. 4 (2002), n. 2, pp. 341-362. Disponível em: <https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302002000200004>.
FERENCZI, Sándor. A adaptação da família à criança. In: Obras Completas - Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
_______. Confusão de língua entre os adultos e a criança. In: Obras Completas - Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
LIMA, Rafael Alves. Clínicas públicas nos primórdios da psicanálise: uma introdução. Teoría y Crítica de la Psicología, Vol. 12 (2019), pp. 292-314. Disponível em: <https://www.teocripsi.com/ojs/index.php/TCP/article/view/292>.
MCWILLIAMS, Nancy. Psychoanalytic supervision. Nova Iorque: The Guilford Press, 2021.
SIGMUND, Freud. O início do tratamento. In: Obras Completas, Volume 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
_______. Conferência XXVIII - Terapia Analítica. In: Obras Completas, Volume 13. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
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